reclamebh | 21 Agosto, 2009 21:19
Há ali, no meio da vizinhança da região do Butantã, na fornalha megalopolitana de São Paulo, uma casinha pequenina suspirando com a gente, esganiçando como cachorra grande. Suspiros intensos entre elos frágeis, porém potentes.
Casinha que quer viver e que, sobre o asfalto, catalisa um processo diário de lutas e labutas por questões simples: há que viver mais e suplicar menos; há que encontrar modos outros de autoproduzir-se no cotidiano e rasgar a fumaça babilônica com festas imprevistas e brigas triviais.
Há que, sobretudo, fazer dela casa, pois
é c'asa que se voa.
"Casa Aberta", "Saudosa Maloca", "Okupa do Butantã"... nomeações variadas voltadas para uma gama de dinâmicas que não se explicam por si sós, a não ser que os corpos que a movem - ao se moverem através dela - se disponham a significá-la sem muito compromisso. Complexamente casa. Uma investida coletiva em meio a problemas coletivos e, portanto, também individuais. Pois apenas corpos a encorpam.
Autonomia e autogestão todos os dias, a cada inspirar e expirar.
Uma olhadela num de seus portais:
http://okupaixaocasaberta.blogspot.com/
reclamebh | 18 Agosto, 2009 22:19
Coisa de putxs-da-vida sem nada a perder...
Podemos pensar em inúmeras formas de ocupação e apropriação de espaços da cidade, sem considerarmos os níveis de radicalidade em que isso se emprega. Fato é que não precisamos descrevê-las muito, até mesmo para evitar juízos demasiado morais quanto às suas efetividades práticas. Como pessoas costumam confundir muito facilmente as coisas, a proposta de material teórico do Cidade Situada se pretende bastante direta, embora não menos aprofundada, além de carregar um tema que foi foco de comemorações precipitadas no ano que passou.
Maio de 1968 não foi culpa de herói toca num ponto pendente daqueles eventos que eclodiram em várias partes do mundo de meados do século XX: o quanto vivências forçosamente historicizadas trazem consigo
citações de uma quase-mesma história já contada, com suas alternâncias de signos e discursos. Desse modo, fazem valer as experiências protagonizadas, as práticas teóricas
vividas em seu seio. O texto está assinado por Pablo Gobira, muito embora se possa ouvi-lo e senti-lo por outras vozes e corpos, em muitos lugares, em investidas como o
Coletivo Acrático Proposta (CAP), o projeto de formação de rede em BH (
Rede Anticapitalista de Belo Horizonte), o
Domingo Nove e Meia, casas de lagartixas e maloqueiros em São Paulo, entre muitas outras "citações" já ganidas por aí. Um apanhado que pode preencher algumas lacunas (da sobrevivência histórica e dos desejos vitais, ambos sobrepostos) que se fizeram entre nós nos últimos anos.
O link está mais acima... aproveite.
A.G.
reclamebh | 23 Marzo, 2009 04:19
Monte seu time e
SE JOGA DE PEIXINHO NESSA PELADA!
reclamebh | 10 Marzo, 2009 21:07
16h00-22h00. Sabah do Par: Música Livre!
No Espaço Ystilingue. Sobreloja 35, Ed. Maletta. Centro - Belo Horizonte/MG
Edição de festa com discotecagem copyleft (DJ V_nss), cerva barata,
laricas veganas, papinho supermaneiro sobre compartilhamento, mídia e
produção musical livre e independente. [
Arrecadando grana pra próxima Escola Autônoma! ]
16h00: Papinho supermaneiro sobre compartilhamento, mídia e produção musical livre e independente.
19h00-22h00: Discotecagem copyleft (DJ V_nss) Sons livres de netlabels e disponíveis na internet.
O tempo todo: Ilha de multiplicação! Compartilhe o que você fez/gosta, leve um pendrive e discos graváveis.
Infos e programação completa:
www.ystilingue.tk
reclamebh | 06 Marzo, 2009 00:39
Vamo anarquizar juntinho?
Neste mês a Casa da Lagartixa Preta "Malagueña Salerosa" completa 5 nos de atividade.
Será um mês inteiro de movimentação daóra extra na casa, com debates, práticas, sem contar as atividades de rotina que continuam (Tesinho,
horta, almoço grátis solidário, biblioteca etc.).
Se liga Confira a agenda extra:
1/3, 14h (domingo) - Grafitagem do muro da casa, participe!
7/3, 15h (sábado) - Literatura e Anarquia - debate com Doris Accioly
8/3, 14h (domingo) - Um dia de Futebol e Política (debate e, em seguita, um bate-bola na rua!)
4/3, 15h (sábado) - Dinheiro e Anarquia (homenagem a 200 anos de Proudhon) - debate com Caio Juca (Ativismo ABC), Guilhermão (Ativismo ABC) e Nildo Avelino (CCS-SP)
5/3 (domingo) - Prática de Permacultura no espaço CICAS em São Paulo (Zona Norte) com o Grupo de Agroecologia da Casa da Lagartixa
Preta [no mesmo dia e local ocorrerá um show de bandas, incluindo a anda convidada Los Perversos (Argentina).]
21/3, 16h (sábado) - Quilombagem - debate dançante afro-brasileiro com o coletivo Kilombagem sobre libertação negra e práticas autonomistas.
22/3, 13h (domingo) - Crítica ao Consumismo Vegano (e Não-Vegano) e oficina de Compressas e Emplastros - com almoço vegano argentino! E
ainda... medicina natural e faça-você-mesmo corporal. Com Animinimalista (Argentina) e coletivo Você Tem Que Desistir.
28/3, 15h (sábado) - GRANDE FESTA SOLIDÁRIA DE ANIVERSÁRIO DE 5 ANOS DA CASA - cada um pode contribuir trazendo seu prato especial de comida e quitutes! Aproveitaremos para debater sobre os rumos da casa, da anarquia etc...
29/3, 14h (domingo) - Debate sobre Pedagogia Libertária com o pessoal do Tesinho e Gabriel da Amanamanha (escola libertária em construção em Santa Catarina).
Todos os eventos (menos 1, fruto da nova aliança entre espaçosibertários de SP) ocorrerão na Casa da Lagartixa Preta "Malagueña Salerosa":
R. Alcides de Queirós, 161 - Bairro Casa Branca, Santo André, SP.
http://www.fotolog.com/ativismoabc
ativismoabc@riseup.net
Para o dia 15/3 no CICAS: http://www.projetocicas.blogspot.com
reclamebh | 27 Febrero, 2009 20:53
Vejam o burburinho que ecoa hoje em dia sobre os mega-eventos promovidos pelas esquerdas ortodoxas, ligadas a respaldos de governos e corporações privadas. Resolveram chamar esses encontros de Fóruns Sociais. Acessem alguns links que contêm uma gama de materiais de análise, elaborados há alguns poucos anos, sobre esses grandes espetáculos que o investimento monetário e a carapuça ideológica sempre podem promover. Contribuição para o resgate de alguns rastros anticapitalistas que foram deixados por aí desde 2001.
[Proletarizad@s Contra-a-Corrente, Coletivo Acrático Proposta, Comunidade Piracema, Anticapitalistas de BH]
[Rede Anticapitalista de Belo Horizonte]
anibalnas | 25 Febrero, 2009 14:50
Programação:
- 9h00 - Geração saúde acorda cedinho, come frutas frescas e cai pra debaixo do viaduto pra...
- 9h30 - Fingir que as pessoas são pontuais e começar sem pressa :)
- Sem horário de verão: Bate-papo sobre direitos animais, veganismo e faça-você-mesmo com ativistas argentinas e brasileiras.
- Quando acharem melhor: Bandas fazendo som: Animinimalista (argentinA), Incerto (Belzonti), Los Perversos (argentinA), Ü (Belzonti), Você Tem Que Desistir (São Paulo)
- Durante o encontro: Lançamento do Guia Primeiros Passos para o Veganismo (Gato Negro Núcleo Libertação Animal)
- Durante o encontro: Campeonato Universal Autônomo Unisex de Futebol-Malandro-de-Rua - sugestão de contribuição com danças ancestrais para atração chuvas!
- 14h00 - Hora do gerador que as bandas arrumaram explodir.
Outras infos:
www.d9meia.tk
reclamebh | 22 Febrero, 2009 16:57
Banquete e conversa descontraída na
Escola Autônoma de Feriado, evento que vem convergindo esforços de variantes diversas de qualquer coisa, durante as "euforias" carnavalescas.
reclamebh | 20 Febrero, 2009 17:27
Para mais um material teórico do
Cidade Situada, a indicação é tentadora. Reconhece-se tranqüilamente nas suas entrelinhas um forte teor de dia-a-dia. Conversas que atravessam ruas e entrecruzam com esquinas.
A.G.
anibalnas | 18 Febrero, 2009 18:27
Essa notícia é de extrema importância está tramitando no senado
federal uma projeto de lei de autoria do senador Expedito Júnior
(PR/RO). Este Projeto de Lei irá obrigar que alimentos e artigos de vestuário venham identificados se há produtos de origem animal na sua composição.
Isso mesmo que você acaba de ler! Esse é o primeiro projeto de lei que cita diretamente o VEGANISMO em seu texto.
É momento de união, precisamos aprovar essa lei e pedir emendas que
incluam produtos COSMÉTICOS, DE LIMPEZA e HIGIENE, e também daqueles
que SÃO TESTADOS EM ANIMAIS. Nunca foi o foco do Gato Negro a aprovação
de leis, mas se essa lei for aprovada, simplesmente não precisaremos
nos preocupar tanto como preocupamos hoje com a procedência de
alimentos e artigos de vestuário (ainda deveríamos pedir para incluir
cosméticos e outros produtos). Os produtos não-veganos simplesmente
viriam com inscrições CONTÊM PRODUTOS DE ORIGEM ANIMAL.
O que você pode fazer?
Manifesto apoio ao projeto de lei 01/09 que tornará
obrigatório que ALIMENTOS, artigos VESTUÁRIO venham identificados se há
produtos de origem animal na composição. Peço a inclusão produtos
COSMÉTICOS, DE LIMPEZA, HIGIENE e PRODUTOS TESTADOS EM ANIMAIS.
É importante para nós veganos termos o direito de saber o que
consumimos, pois por questões éticas não utilizamos produtos animais
por estarmos convictos de que a discriminação de espécies (o especismo)
inaceitável como o racismo e a homofobia.
- Envie um email para o Senador Expedito Junior reforçando a
necessidade de aprovação do PLS, pedindo a inclusão de produtos
COSMÉTICOS, DE LIMPEZA e HIGIENE e o aviso em produtos que são testados
em animais. expedito.junior@senador.gov.br
- Envie um email para os senadores pedindo aprovação do PLS 01/2009 e
EMENDAS que incluam produtos COSMÉTICOS, DE LIMPEZA e HIGIENE, e também
daqueles que SÃO TESTADOS EM ANIMAIS para os senadores. Segue lista e
email de exemplo:
anibalnas | 13 Febrero, 2009 13:29
Info
A EAF é um encontro que ocorrerá durante o feriado de carnaval no qual serão
realizadas diversas atividades propostas por pessoas e coletivos autônomos de Belo Horizonte.
Mas por que "AUTÔNOMA"?
Autônoma em relação ao discurso e às formas vigentes de organização da vida
cotidiana demasiadamente hierárquicas e alienantes.
Autonomia em relação a um feriado que já não sabe a que veio, uma manifestação popular, ou uma lucrativa cultura de massas.
A EAF é um encontro que visa criar experiências para os dias de feirado e além.
Seja por um zine pego grátis na estante, por uma idéia apreendida em alguma
palestra, por um stencil na camisa produzido na oficina, por um grupo de pessoas
que decidem se encontrar novamente para outras conspirações (um coletivo político,
um futebol na sexta, uma banda, uma revista...), ou por uma boa lembrança de um carnaval diferente.
Mais informaçoes e Programação:
www.azucrina.org/eaf
reclamebh | 05 Febrero, 2009 09:18
MANIFESTO POR UMA ANTICULINÁRIA LÚDICA DE GUERRILHA
ou 10 notas do ECLC sobre autonomia e autogestão na cozinha
“Chapati:
água + farinha = massa chata frita na chapa ou assada no forno; pão
sem fermento. Culinária:
atividade separada, hierarquizada sob determinação de
especialistas”
“Todo bicho-humano deve ser
atrevido e demente a ponto de VIVER sua poesia”
Em
conformidade com a atual conjuntura alimentar, o Exército Chapatista
de Libertação da Culinária vem declarar que:
1) Não partilhamos da inércia e
desleixo alimentícios sempre desculpados pela “falta de tempo”
ou pelos supostos “deveres” exigidos nas tramas do trabalho
assalariado, dos estudos universitários ou das válvulas de escape
terapêuticas. Apressados comem cru.
2) Duvidamos mesmo da
segurança nutricional do que normalmente vem sendo consumido,
mediante a troca monetária, nos estabelecimentos comerciais de
alimentação, sejam fast-foods transnacionais ou cantinas
vegetarianas locais recheadas de pompas evitáveis.
3) Preferimos o recurso estratégico
do garimpo urbano e da reciclagem improvisativa-experimental, sem a
mínima pretensão, por enquanto, de fazer dele uma alternativa
final às questões cotidianas da alimentação. É mais
que viável comer sem ter que pagar por isso.
4) Entendemos tal estratégia como
um meio possível de desvio radical em relação às práticas
cômodas do consumismo e do trabalho, e não um fim absoluto que traz
soluções em cadeia para os problemas globais.
5) Nossa questão é imediatamente
cotidiana, portanto não necessariamente se relaciona com a histeria
do social, econômico, psicológico, sexual, artístico, cultural,
patológico, etc. Percebemos essa gama de categorias separadas como
espécie de esquizofrenia teoricista e como baboseira que sempre
favorece a fácil captura, pelas mãos dos especialistas da indústria
gastronômica, de iniciativas concretas e vitais. Consideramos a
guerrilha de cozinha como tudo isso ao mesmo tempo.
6) Nossas iniciativas se pautam
definitivamente na vida, contra as arbitrariedades da
sobrevivência.
7) Não apoiamos e nem mesmo
precisamos do uso de ingredientes derivados de animais não-humanos
(esses seres que também sentem, assimilam dor e sofrimento e não
têm a oportunidade de reação “organizada” frente às mazelas
que os onívoros humanos perpetram contra suas vidas) para a
confecção de bombas... ou melhor, refeições.
8) Propomos a troca ilimitada de
experiências referentes ao cultivo, produção, armazenamento e
degustação de alimentos. Acrescentamos: que essa troca se dê sem
mestres (normalmente uns cretinos) e alunos (em latim, sem-luz),
sem oradores e ouvintes. Aprendizado livre consiste, para nós, em
ser capaz de falar e ouvir, transfundir entre todos sem muito
requinte. É questão de diálogo prático e organicidade.
9) Não somos ninguém e somos todos os que
partilham, em teoria e prática, da necessidade de subverter o
dia-a-dia vivendo. Nossas faces estão refletidas naquelas que estão
cansadas de estarem cansadas. Nós, soldados do gozo e glutões
assumidos, declaramos nossa guerra à monotonia e caretice que
imperam nas cozinhas, meios de trabalho, escolas tradicionais,
igrejas, galerias de arte, centros culturais e muitos outros
paradeiros. Façamos nosso rango em todos os cantos possíveis, agora
ou assim que desejarmos. O ápice da idiotia: aguardar o momento
revolucionário aclamado pelos porcos historicistas para, então,
decidir pela apropriação desse aspecto específico de nossa vida –
o preparo de nossa comida. Esse momento já está em curso e
são eles, os ativistas e militantes de plantão, que estão perdendo
o bonde.
10) Se a vida fosse simples, ela não
teria a mínima graça.
De mais
uma cozinha ocupada nos altos montes que não podem pecar,
Anti-chef
Semkara.
reclamebh | 05 Febrero, 2009 07:22
Mais um material teórico sobre cidades, desta vez mais enxuto. Os "oficiais" costumam cunhar o termo "revitalização". Chamaremos pelos nomes que condizem na prática com esse tipo de operação muito comum às metrópoles contemporâneas: gentrificação ou nobilização, empreendimento do Estado e de investidores privados na higienização econômica da cidade. Esse texto pode estar um pouco descontextualizado, mas fala sobre algo muito semelhante ao que ocorreu no centro de BH em 2006, ao que vem ocorrendo na área do velho centro do Rio (sob a insígnia do "Choque de Ordem" da nova prefeitura) e ao que se vê sempre alardear no centro de SP, com os contínuos desalojamentos de sem-teto que ali acontecem. Vale uma ressalva: é claro que esse tipo de medida está longe de ser desenvolvida apenas nos centros urbanos, mas é predominante neles.
Aproveitem como quiserem.
A.G.
___________________________________________________
Da
gentrificação: reverberações de um mundo perverso
Um
diálogo teórico entre Milton Santos e Neil Smith
É
para se tornar cada vez mais idêntico a si próprio, para se
aproximar o melhor possível da monotonia imóvel, que
o espaço livre da mercadoria é,
doravante, a cada instante modificado e reconstruído.
Guy
Debord, A
Sociedade do Espetáculo (§
166).
Fato
inegável do mundo contemporâneo é o que nos diz que mudanças
bruscas a respeito da noção de espacialidade e de uso efetivo da
cidade se desencadearam ao longo do século XX, endossadas
concretamente por sucessivas re-configurações no cenário econômico
mundial. A própria dinâmica de um mundo que assistiu ao gradual
processo de globalização econômica – globalização esta que vê
em tudo mercadoria e trânsito de mão-de-obra – afeta
invariavelmente os meios possíveis de vida desencadeando – como,
afinal, não poderia deixar de ser – práticas outras, muito
diferenciadas, de formatação do espaço humanamente construído, de
apropriação e conceituação do mesmo. Quando as transações
econômicas tendem inevitavelmente a assumir uma dimensão
globalizada, quando as fronteiras nacionais se tornam inconsistentes
em termos práticos e as cidades se intercomunicam indiretamente, as
espacialidades construídas se moldam fluida e desequilibradamente.
Tal fenômeno, caracterizado por Milton Santos como globalização
perversa,
é o mesmo que, nos compromissos de consumo e mundialização, da
velocidade e da unicidade do discurso sobre o mundo, revela uma
realidade factual que se consuma na diluição do território e na
re-articulação arbitrária e lucrativa de seus usos.
Coadunados com
Milton Santos, entendemos território como um meio que, representado
e praticado
coletivamente,
pode ser resumido na equação entre “o chão e mais a população,
isto é, uma identidade, o fato e o sentimento de pertencer àquilo
que nos pertence”.
Tendência visível da ordem econômica global é extirpar dos
territórios sua própria substância prática e comunitária
autoconstruída para torná-los – mediante intervenções do Estado
e/ou de iniciativas privadas – verdadeiro bombeador financeiro, um
nicho de mercado nas suas mais variadas formas. Recorrente em tal
perspectiva é o não-reconhecimento das dinâmicas espontâneas das
cidades, das construções que as próprias comunidades fazem para si
do espaço, em função de uma cidade
globalizada
inscrita na ótica mercantil que não excepcionalmente se manifesta
como um fim em si mesma.
O que Smith chama
de um novo urbanismo do século XXI é marcado justamente por esse
tipo de não-elo – ou, pode-se dizer, uma diferença de pesos entre
as partes envolvidas concretamente nessas tramas – que predomina
precisamente entre as coletividades locais e o foco de poder do
Estado em coligação com os empreendedores. O processo de
gentrificação, que hoje apresenta – segundo Smith – aspectos
diversos dos que se desenvolveram durante finais do século XIX e
inícios do XX, é emblemático em meio à atual conjuntura. As
iniciativas pela valorização imobiliária que num primeiro momento
é perpetrado por atores individuais – não perdendo, ao fim e ao
cabo, sua natureza “classista” de ser –, que literalmente
expulsa de regiões da cidade indivíduos em condição
sócio-econômica menos avantajada para a realização de deliberada
higienização dessas regiões, recebem hoje o habeas
corpus do
Estado para a consolidação dos interesses privados adequados à
economia mercantil global.
Com Smith, podemos
traçar como determinante primordial para o entendimento das práticas
de gentrificação o fato de que elas compõem “contextos culturais
e econômicos de nível muito local e se conectam de maneira muito
complexa com as economias nacionais e globais”. Contudo, as
modificações que delineiam o processo ao longo de mais de um século
tenderam a ocultar sua face “classista” por trás de discursos
que levam em consideração as rápidas mudanças ocorridas na
geografia econômica.
Atualmente, esse tipo de iniciativa que não raramente gera alto
contingente de sem-teto ou mesmo o desmantelamento completo de
comunidades que erigiam, elas mesmas, histórias próprias se move em
consonância com os ditames de um mundo pretensamente homogeneizado,
em que todos alcançam todos e tudo, não obstante os verdadeiros
distanciamentos postos cotidianamente de indivíduo a indivíduo,
grupo a grupo se mantenham, se não acirrados, intactos. A idéia de
que uma cidade deve se construir com base nas demandas
desterritorializadas dos mega-investimentos corporativos ou mesmo da
força repressora do Estado são os ingredientes mais sintonizados da
lógica perversa da globalização que se desenrola – desde seu
primeiro som no fim do século XX até seu aprofundamento mais hostil
em menos de dez anos de século XXI. A globalização que dá forma
ao segundo mundo de um só mundo tripartido que Santos alardeia ser a
mesma que localmente enxota comunidades do próprio território que
as mesmas construíram (e onde as mesmas se ergueram),
substituindo-os sem zelo pelas grandes transnacionais que, agora ali
instaladas, não firmam qualquer tipo de compromisso com as condições
materialmente dadas nessas localidades. O local se subsume
inexoravelmente num global abstrato que rege o caráter fabuloso
de um mundo repleto de ilusões necessárias para escamotear as
muitas facetas de uma miséria imediatamente cotidiana. Uma
“ideologização maciça” que faz contrapartida aos uivos do fim
das ideologias.
A perspectiva perversa da globalização como ela tem se dado é essa
que não reconhece a cidade como o local mesmo do movimento. Ou seja,
sempre inconstante, qualquer deslocamento arbitrário voltado para a
solução de “anomalias” mínimas situadas em seu seio é capaz
de gerar efeitos anômalos tão intensos e, cabe reforçar, perversos
quanto os precedentes, ou ainda mais pujantes.
Acompanhando crises
econômicas agudas, a gentrificação passa rapidamente, do final da
década de 1990 até os dias de hoje, dos centros às periferias –
pelo menos em Nova Iorque –, mantendo o mesmo aspecto inicial,
abrindo alas para que as classes médias – consumidoras em maior
potencial – ocupem, pela força aquisitiva, os novos paraísos
higiênicos do mercado. Os centros urbanos se tornam focos de novos
fluxos de capital globalizado, o que de certa forma se torna, para
Smith, a marca de uma última fase de gentrificação.
Deste modo, as resistências surgem pontualmente, focalizadas
exatamente na prática gentrificadora. A diversidade de movimentos
voltados contra a especulação em todos os seus matizes pode se
fazer aparecer na forma de organizações de sem-teto, squatters,
locatários. Smith denomina tal contraponto de movimentos
anti-gentrificação,
e aponta o “alto grau de repressão a que foram expostos”
em vários locais do mundo (e podemos dizer seguramente que o Brasil
se insere nesse contexto). Santos qualifica esse fenômeno avesso à
lógica apregoada como uma esquizofrenia
do espaço,
isto é, impossível a imposição de uma ordem que não produza uma
contra-ordem por parte dos que, de uma forma ou de outra, se vêem à
parte ou ao relento de um mundo que, pretensamente hegemônico, os
condena à marginalidade ou visa a impor-lhes o silêncio. A
individualidade se joga contra a unicidade de pensamento que rascunha
justamente a suposta homogeneidade e hegemonia de uma ordem posta,
assimilando as condições materiais do mundo contemporâneo e
buscando entender criticamente os paradoxos – que, como diria
Santos, devem ser apreendidos como a
contradição em estado puro
– em torno das mesmas. Corpos que não vêem no mundo globalizado
que vem sendo produzido o lugar
de
suas próprias potencialidades.
NOTAS:
Referências
bibliográficas:
ARENDT, Hannah. A
condição humana.
Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2008.
BIDOU-ZACHARIASEN,
Catherine (coord.). De
volta à cidade:
do processo de gentrificação às políticas de “revitalização”
dos centros urbanos. São
Paulo: Annablume, 2006.
BOURDIEU, Pierre. O
Poder Simbólico.
Lisboa: Difel/Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.
DEBORD, Guy. A
sociedade do espetáculo.
Belo Horizonte: Edição Pirata (Coletivo Acrático Proposta), 2003.
SANTOS,
Milton. Por
uma outra globalização.
Rio de Janeiro: Records, 2006.
Revista
Projeto História:
espaço
e cultura, vol. 18. São Paulo: EDUC, 1999.
reclamebh | 03 Febrero, 2009 02:50
reclamebh | 31 Enero, 2009 05:24