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Mesmo no asfalto, uma casinha tiquitita
reclamebh | 21 Agosto, 2009 21:19

Há ali, no meio da vizinhança da região do Butantã, na fornalha megalopolitana de São Paulo, uma casinha pequenina suspirando com a gente, esganiçando como cachorra grande. Suspiros intensos entre elos frágeis, porém potentes.
 
casa tiquitita
 
Casinha que quer viver e que, sobre o asfalto, catalisa um processo diário de lutas e labutas por questões simples: há que viver mais e suplicar menos; há que encontrar modos outros de autoproduzir-se no cotidiano e rasgar a fumaça babilônica com festas imprevistas e brigas triviais.

Há que, sobretudo, fazer dela casa, pois é c'asa que se voa.

"Casa Aberta", "Saudosa Maloca", "Okupa do Butantã"... nomeações variadas voltadas para uma gama de dinâmicas que não se explicam por si sós, a não ser que os corpos que a movem - ao se moverem através dela - se disponham a significá-la sem muito compromisso. Complexamente casa. Uma investida coletiva em meio a problemas coletivos e, portanto, também individuais. Pois apenas corpos a encorpam.

Autonomia e autogestão todos os dias, a cada inspirar e expirar.

Uma olhadela num de seus portais: http://okupaixaocasaberta.blogspot.com/


CIDADE SITUADA - material teórico:: Maio de 1968 não foi culpa de herói
reclamebh | 18 Agosto, 2009 22:19

Coisa de putxs-da-vida sem nada a perder...
 
Maio de 68
 
 
Podemos pensar em inúmeras formas de ocupação e apropriação de espaços da cidade, sem considerarmos os níveis de radicalidade em que isso se emprega. Fato é que não precisamos descrevê-las muito, até mesmo para evitar juízos demasiado morais quanto às suas efetividades práticas. Como pessoas costumam confundir muito facilmente as coisas, a proposta de material teórico do Cidade Situada se pretende bastante direta, embora não menos aprofundada, além de carregar um tema que foi foco de comemorações precipitadas no ano que passou. Maio de 1968 não foi culpa de herói toca num ponto pendente daqueles eventos que eclodiram em várias partes do mundo de meados do século XX: o quanto vivências forçosamente historicizadas trazem consigo citações de uma quase-mesma história já contada, com suas alternâncias de signos e discursos. Desse modo, fazem valer as experiências protagonizadas, as práticas teóricas vividas em seu seio. O texto está assinado por Pablo Gobira, muito embora se possa ouvi-lo e senti-lo por outras vozes e corpos, em muitos lugares, em investidas como o Coletivo Acrático Proposta (CAP), o projeto de formação de rede em BH (Rede Anticapitalista de Belo Horizonte), o Domingo Nove e Meia, casas de lagartixas e maloqueiros em São Paulo, entre muitas outras "citações" já ganidas por aí. Um apanhado que pode preencher algumas lacunas (da sobrevivência histórica e dos desejos vitais, ambos sobrepostos) que se fizeram entre nós nos últimos anos.
 
O link está mais acima... aproveite.
 
 
A.G.


Campeonato "Pelada Molotoiana de Rua"
reclamebh | 23 Marzo, 2009 04:19

Pelada Molotoviana

 

Monte seu time e 

SE JOGA DE PEIXINHO NESSA PELADA!


Sabah do Par: Música Livre
reclamebh | 10 Marzo, 2009 21:07

 

16h00-22h00. Sabah do Par: Música Livre!

No Espaço Ystilingue. Sobreloja 35, Ed. Maletta. Centro - Belo Horizonte/MG

Edição de festa com discotecagem copyleft (DJ V_nss), cerva barata, laricas veganas, papinho supermaneiro sobre compartilhamento, mídia e produção musical livre e independente. [ Arrecadando grana pra próxima Escola Autônoma! ]

16h00: Papinho supermaneiro sobre compartilhamento, mídia e produção musical livre e independente.
19h00-22h00: Discotecagem copyleft (DJ V_nss) Sons livres de netlabels e disponíveis na internet.
O tempo todo: Ilha de multiplicação! Compartilhe o que você fez/gosta, leve um pendrive e discos graváveis.

Infos e programação completa: www.ystilingue.tk


Casa da Lagartixa Preta - 5 anos anarquizando!
reclamebh | 06 Marzo, 2009 00:39

 

Vamo anarquizar juntinho?

Neste mês a Casa da Lagartixa Preta "Malagueña Salerosa" completa 5 nos de atividade.
Será um mês inteiro de movimentação daóra extra na casa, com debates, práticas, sem contar as atividades de rotina que continuam (Tesinho,
horta, almoço grátis solidário, biblioteca etc.).

Se liga Confira a agenda extra:

1/3, 14h (domingo) - Grafitagem do muro da casa, participe!

7/3, 15h (sábado) - Literatura e Anarquia - debate com Doris Accioly

8/3, 14h (domingo) - Um dia de Futebol e Política (debate e, em seguita, um bate-bola na rua!)

4/3, 15h (sábado) - Dinheiro e Anarquia (homenagem a 200 anos de Proudhon) - debate com Caio Juca (Ativismo ABC), Guilhermão (Ativismo ABC) e Nildo Avelino (CCS-SP)

5/3 (domingo) - Prática de Permacultura no espaço CICAS em São Paulo (Zona Norte) com o Grupo de Agroecologia da Casa da Lagartixa
Preta [no mesmo dia e local ocorrerá um show de bandas, incluindo a anda convidada Los Perversos (Argentina).]

21/3, 16h (sábado) - Quilombagem - debate dançante afro-brasileiro com o coletivo Kilombagem sobre libertação negra e práticas autonomistas.

22/3, 13h (domingo) - Crítica ao Consumismo Vegano (e Não-Vegano) e oficina de Compressas e Emplastros - com almoço vegano argentino! E
ainda... medicina natural e faça-você-mesmo corporal. Com Animinimalista (Argentina) e coletivo Você Tem Que Desistir.

28/3, 15h (sábado) - GRANDE FESTA SOLIDÁRIA DE ANIVERSÁRIO DE 5 ANOS DA CASA - cada um pode contribuir trazendo seu prato especial de comida e quitutes! Aproveitaremos para debater sobre os rumos da casa, da anarquia etc...

29/3, 14h (domingo) - Debate sobre Pedagogia Libertária com o pessoal do Tesinho e Gabriel da Amanamanha (escola libertária em construção em Santa Catarina).

Todos os eventos (menos 1, fruto da nova aliança entre espaçosibertários de SP) ocorrerão na Casa da Lagartixa Preta "Malagueña Salerosa":
R. Alcides de Queirós, 161 - Bairro Casa Branca, Santo André, SP.


http://www.fotolog.com/ativismoabc
ativismoabc@riseup.net

Para o dia 15/3 no CICAS: http://www.projetocicas.blogspot.com

 


Links para análises sobre os Fóruns $ociais.
reclamebh | 27 Febrero, 2009 20:53

Vejam o burburinho que ecoa hoje em dia sobre os mega-eventos promovidos pelas esquerdas ortodoxas, ligadas a respaldos de governos e corporações privadas. Resolveram chamar esses encontros de Fóruns Sociais. Acessem alguns links que contêm uma gama de materiais de análise, elaborados há alguns poucos anos, sobre esses grandes espetáculos que o investimento monetário e a carapuça ideológica sempre podem promover. Contribuição para o resgate de alguns rastros anticapitalistas que foram deixados por aí desde 2001.
 
[Proletarizad@s Contra-a-Corrente, Coletivo Acrático Proposta, Comunidade Piracema, Anticapitalistas de BH]
http://www.geocities.com/comunistasdeconselhos/fsm.htm
 
[Rede Anticapitalista de Belo Horizonte]
http://www.ainfos.ca/03/nov/ainfos00138.html


Domingo 9 e 1/2 - Março
anibalnas | 25 Febrero, 2009 14:50

WebFlyers

Programação:

Outras infos:

www.d9meia.tk


CIDADE SITUADA [Mesa Amorfa] discute sutilezas e dilemas das TAZ´s, na EAF.
reclamebh | 22 Febrero, 2009 16:57

Banquete e conversa descontraída na Escola Autônoma de Feriado, evento que vem convergindo esforços de variantes diversas de qualquer coisa, durante as "euforias" carnavalescas.
 
 
 


Cidade Situada - mais um material teórico:: Pedra e tanque.
reclamebh | 20 Febrero, 2009 17:27

 
 
Para mais um material teórico do Cidade Situada, a indicação é tentadora. Reconhece-se tranqüilamente nas suas entrelinhas um forte teor de dia-a-dia. Conversas que atravessam ruas e entrecruzam com esquinas.
 
Leitura rápida: Pedra e tanque. http://aczine.wordpress.com/2009/02/09/274/
 
 
A.G.


(Divulgando) URGENTE: Projeto de lei esclarece produtos veganos
anibalnas | 18 Febrero, 2009 18:27

Essa notícia é de extrema importância está tramitando no senado federal uma projeto de lei de autoria do senador Expedito Júnior (PR/RO). Este Projeto de Lei irá obrigar que alimentos e artigos de vestuário venham identificados se há produtos de origem animal na sua composição.

Isso mesmo que você acaba de ler! Esse é o primeiro projeto de lei que cita diretamente o VEGANISMO em seu texto.

É momento de união, precisamos aprovar essa lei e pedir emendas que incluam produtos COSMÉTICOS, DE LIMPEZA e HIGIENE, e também daqueles que SÃO TESTADOS EM ANIMAIS. Nunca foi o foco do Gato Negro a aprovação de leis, mas se essa lei for aprovada, simplesmente não precisaremos nos preocupar tanto como preocupamos hoje com a procedência de alimentos e artigos de vestuário (ainda deveríamos pedir para incluir cosméticos e outros produtos). Os produtos não-veganos simplesmente viriam com inscrições CONTÊM PRODUTOS DE ORIGEM ANIMAL.

O que você pode fazer?

Manifesto apoio ao projeto de lei 01/09 que tornará obrigatório que ALIMENTOS, artigos VESTUÁRIO venham identificados se há produtos de origem animal na composição. Peço a inclusão produtos COSMÉTICOS, DE LIMPEZA, HIGIENE e PRODUTOS TESTADOS EM ANIMAIS.

É importante para nós veganos termos o direito de saber o que consumimos, pois por questões éticas não utilizamos produtos animais por estarmos convictos de que a discriminação de espécies (o especismo) inaceitável como o racismo e a homofobia.

  • Envie um email para o Senador Expedito Junior reforçando a necessidade de aprovação do PLS, pedindo a inclusão de produtos COSMÉTICOS, DE LIMPEZA e HIGIENE e o aviso em produtos que são testados em animais. expedito.junior@senador.gov.br
  • Envie um email para os senadores pedindo aprovação do PLS 01/2009 e EMENDAS que incluam produtos COSMÉTICOS, DE LIMPEZA e HIGIENE, e também daqueles que SÃO TESTADOS EM ANIMAIS para os senadores. Segue lista e email de exemplo:


22a24-fev - Escola Autônoma de Feriado
anibalnas | 13 Febrero, 2009 13:29

 

Info

A EAF é um encontro que ocorrerá durante o feriado de carnaval no qual serão realizadas diversas atividades propostas por pessoas e coletivos autônomos de Belo Horizonte.

Mas por que "AUTÔNOMA"?
Autônoma em relação ao discurso e às formas vigentes de organização da vida cotidiana demasiadamente hierárquicas e alienantes. Autonomia em relação a um feriado que já não sabe a que veio, uma manifestação popular, ou uma lucrativa cultura de massas.

A EAF é um encontro que visa criar experiências para os dias de feirado e além. Seja por um zine pego grátis na estante, por uma idéia apreendida em alguma palestra, por um stencil na camisa produzido na oficina, por um grupo de pessoas que decidem se encontrar novamente para outras conspirações (um coletivo político, um futebol na sexta, uma banda, uma revista...), ou por uma boa lembrança de um carnaval diferente. 

Mais informaçoes e Programação:
www.azucrina.org/eaf


SITUAÇÃO DE PERIGO!!!
reclamebh | 05 Febrero, 2009 09:18

MANIFESTO POR UMA ANTICULINÁRIA LÚDICA DE GUERRILHA
ou 10 notas do ECLC sobre autonomia e autogestão na cozinha


Chapati: água + farinha = massa chata frita na chapa ou assada no forno; pão sem fermento. Culinária: atividade separada, hierarquizada sob determinação de especialistas”

Todo bicho-humano deve ser atrevido e demente a ponto de VIVER sua poesia”

 

 

Em conformidade com a atual conjuntura alimentar, o Exército Chapatista de Libertação da Culinária vem declarar que:


1) Não partilhamos da inércia e desleixo alimentícios sempre desculpados pela “falta de tempo” ou pelos supostos “deveres” exigidos nas tramas do trabalho assalariado, dos estudos universitários ou das válvulas de escape terapêuticas. Apressados comem cru.

2) Duvidamos mesmo da segurança nutricional do que normalmente vem sendo consumido, mediante a troca monetária, nos estabelecimentos comerciais de alimentação, sejam fast-foods transnacionais ou cantinas vegetarianas locais recheadas de pompas evitáveis.

3) Preferimos o recurso estratégico do garimpo urbano e da reciclagem improvisativa-experimental, sem a mínima pretensão, por enquanto, de fazer dele uma alternativa final às questões cotidianas da alimentação. É mais que viável comer sem ter que pagar por isso.

4) Entendemos tal estratégia como um meio possível de desvio radical em relação às práticas cômodas do consumismo e do trabalho, e não um fim absoluto que traz soluções em cadeia para os problemas globais.

5) Nossa questão é imediatamente cotidiana, portanto não necessariamente se relaciona com a histeria do social, econômico, psicológico, sexual, artístico, cultural, patológico, etc. Percebemos essa gama de categorias separadas como espécie de esquizofrenia teoricista e como baboseira que sempre favorece a fácil captura, pelas mãos dos especialistas da indústria gastronômica, de iniciativas concretas e vitais. Consideramos a guerrilha de cozinha como tudo isso ao mesmo tempo.

6) Nossas iniciativas se pautam definitivamente na vida, contra as arbitrariedades da sobrevivência.

7) Não apoiamos e nem mesmo precisamos do uso de ingredientes derivados de animais não-humanos (esses seres que também sentem, assimilam dor e sofrimento e não têm a oportunidade de reação “organizada” frente às mazelas que os onívoros humanos perpetram contra suas vidas) para a confecção de bombas... ou melhor, refeições.

8) Propomos a troca ilimitada de experiências referentes ao cultivo, produção, armazenamento e degustação de alimentos. Acrescentamos: que essa troca se dê sem mestres (normalmente uns cretinos) e alunos (em latim, sem-luz), sem oradores e ouvintes. Aprendizado livre consiste, para nós, em ser capaz de falar e ouvir, transfundir entre todos sem muito requinte. É questão de diálogo prático e organicidade.

9) Não somos ninguém e somos todos os que partilham, em teoria e prática, da necessidade de subverter o dia-a-dia vivendo. Nossas faces estão refletidas naquelas que estão cansadas de estarem cansadas. Nós, soldados do gozo e glutões assumidos, declaramos nossa guerra à monotonia e caretice que imperam nas cozinhas, meios de trabalho, escolas tradicionais, igrejas, galerias de arte, centros culturais e muitos outros paradeiros. Façamos nosso rango em todos os cantos possíveis, agora ou assim que desejarmos. O ápice da idiotia: aguardar o momento revolucionário aclamado pelos porcos historicistas para, então, decidir pela apropriação desse aspecto específico de nossa vida – o preparo de nossa comida. Esse momento já está em curso e são eles, os ativistas e militantes de plantão, que estão perdendo o bonde.

10) Se a vida fosse simples, ela não teria a mínima graça.


De mais uma cozinha ocupada nos altos montes que não podem pecar,


Anti-chef Semkara.


CIDADE SITUADA - mais um material teórico.
reclamebh | 05 Febrero, 2009 07:22

Mais um material teórico sobre cidades, desta vez mais enxuto. Os "oficiais" costumam cunhar o termo "revitalização". Chamaremos pelos nomes que condizem na prática com esse tipo de operação muito comum às metrópoles contemporâneas: gentrificação ou nobilização, empreendimento do Estado e de investidores privados na higienização econômica da cidade. Esse texto pode estar um pouco descontextualizado, mas fala sobre algo muito semelhante ao que ocorreu no centro de BH em 2006, ao que vem ocorrendo na área do velho centro do Rio (sob a insígnia do "Choque de Ordem" da nova prefeitura) e ao que se vê sempre alardear no centro de SP, com os contínuos desalojamentos de sem-teto que ali acontecem. Vale uma ressalva: é claro que esse tipo de medida está longe de ser desenvolvida apenas nos centros urbanos, mas é predominante neles.
 
Aproveitem como quiserem. 
 
 
A.G.
 
___________________________________________________
 
 
Da gentrificação: reverberações de um mundo perverso

 

Um diálogo teórico entre Milton Santos e Neil Smith

 


 

É para se tornar cada vez mais idêntico a si próprio, para se aproximar o melhor possível da monotonia imóvel, que o espaço livre da mercadoria é, doravante, a cada instante modificado e reconstruído.

 

Guy Debord, A Sociedade do Espetáculo (§ 166).




Fato inegável do mundo contemporâneo é o que nos diz que mudanças bruscas a respeito da noção de espacialidade e de uso efetivo da cidade se desencadearam ao longo do século XX, endossadas concretamente por sucessivas re-configurações no cenário econômico mundial. A própria dinâmica de um mundo que assistiu ao gradual processo de globalização econômica – globalização esta que vê em tudo mercadoria e trânsito de mão-de-obra – afeta invariavelmente os meios possíveis de vida desencadeando – como, afinal, não poderia deixar de ser – práticas outras, muito diferenciadas, de formatação do espaço humanamente construído, de apropriação e conceituação do mesmo. Quando as transações econômicas tendem inevitavelmente a assumir uma dimensão globalizada, quando as fronteiras nacionais se tornam inconsistentes em termos práticos e as cidades se intercomunicam indiretamente, as espacialidades construídas se moldam fluida e desequilibradamente. Tal fenômeno, caracterizado por Milton Santos como globalização perversa, é o mesmo que, nos compromissos de consumo e mundialização, da velocidade e da unicidade do discurso sobre o mundo, revela uma realidade factual que se consuma na diluição do território e na re-articulação arbitrária e lucrativa de seus usos.

Coadunados com Milton Santos, entendemos território como um meio que, representado e praticado coletivamente, pode ser resumido na equação entre “o chão e mais a população, isto é, uma identidade, o fato e o sentimento de pertencer àquilo que nos pertence”1. Tendência visível da ordem econômica global é extirpar dos territórios sua própria substância prática e comunitária autoconstruída para torná-los – mediante intervenções do Estado e/ou de iniciativas privadas – verdadeiro bombeador financeiro, um nicho de mercado nas suas mais variadas formas. Recorrente em tal perspectiva é o não-reconhecimento das dinâmicas espontâneas das cidades, das construções que as próprias comunidades fazem para si do espaço, em função de uma cidade globalizada inscrita na ótica mercantil que não excepcionalmente se manifesta como um fim em si mesma2.

O que Smith chama de um novo urbanismo do século XXI é marcado justamente por esse tipo de não-elo – ou, pode-se dizer, uma diferença de pesos entre as partes envolvidas concretamente nessas tramas – que predomina precisamente entre as coletividades locais e o foco de poder do Estado em coligação com os empreendedores. O processo de gentrificação, que hoje apresenta – segundo Smith – aspectos diversos dos que se desenvolveram durante finais do século XIX e inícios do XX, é emblemático em meio à atual conjuntura. As iniciativas pela valorização imobiliária que num primeiro momento é perpetrado por atores individuais – não perdendo, ao fim e ao cabo, sua natureza “classista” de ser –, que literalmente expulsa de regiões da cidade indivíduos em condição sócio-econômica menos avantajada para a realização de deliberada higienização dessas regiões, recebem hoje o habeas corpus do Estado para a consolidação dos interesses privados adequados à economia mercantil global.

Com Smith, podemos traçar como determinante primordial para o entendimento das práticas de gentrificação o fato de que elas compõem “contextos culturais e econômicos de nível muito local e se conectam de maneira muito complexa com as economias nacionais e globais”. Contudo, as modificações que delineiam o processo ao longo de mais de um século tenderam a ocultar sua face “classista” por trás de discursos que levam em consideração as rápidas mudanças ocorridas na geografia econômica3. Atualmente, esse tipo de iniciativa que não raramente gera alto contingente de sem-teto ou mesmo o desmantelamento completo de comunidades que erigiam, elas mesmas, histórias próprias se move em consonância com os ditames de um mundo pretensamente homogeneizado, em que todos alcançam todos e tudo, não obstante os verdadeiros distanciamentos postos cotidianamente de indivíduo a indivíduo, grupo a grupo se mantenham, se não acirrados, intactos. A idéia de que uma cidade deve se construir com base nas demandas desterritorializadas dos mega-investimentos corporativos ou mesmo da força repressora do Estado são os ingredientes mais sintonizados da lógica perversa da globalização que se desenrola – desde seu primeiro som no fim do século XX até seu aprofundamento mais hostil em menos de dez anos de século XXI. A globalização que dá forma ao segundo mundo de um só mundo tripartido que Santos alardeia ser a mesma que localmente enxota comunidades do próprio território que as mesmas construíram (e onde as mesmas se ergueram), substituindo-os sem zelo pelas grandes transnacionais que, agora ali instaladas, não firmam qualquer tipo de compromisso com as condições materialmente dadas nessas localidades. O local se subsume inexoravelmente num global abstrato que rege o caráter fabuloso de um mundo repleto de ilusões necessárias para escamotear as muitas facetas de uma miséria imediatamente cotidiana. Uma “ideologização maciça” que faz contrapartida aos uivos do fim das ideologias4. A perspectiva perversa da globalização como ela tem se dado é essa que não reconhece a cidade como o local mesmo do movimento. Ou seja, sempre inconstante, qualquer deslocamento arbitrário voltado para a solução de “anomalias” mínimas situadas em seu seio é capaz de gerar efeitos anômalos tão intensos e, cabe reforçar, perversos quanto os precedentes, ou ainda mais pujantes.

Acompanhando crises econômicas agudas, a gentrificação passa rapidamente, do final da década de 1990 até os dias de hoje, dos centros às periferias – pelo menos em Nova Iorque –, mantendo o mesmo aspecto inicial, abrindo alas para que as classes médias – consumidoras em maior potencial – ocupem, pela força aquisitiva, os novos paraísos higiênicos do mercado. Os centros urbanos se tornam focos de novos fluxos de capital globalizado, o que de certa forma se torna, para Smith, a marca de uma última fase de gentrificação5. Deste modo, as resistências surgem pontualmente, focalizadas exatamente na prática gentrificadora. A diversidade de movimentos voltados contra a especulação em todos os seus matizes pode se fazer aparecer na forma de organizações de sem-teto, squatters6, locatários. Smith denomina tal contraponto de movimentos anti-gentrificação, e aponta o “alto grau de repressão a que foram expostos”7 em vários locais do mundo (e podemos dizer seguramente que o Brasil se insere nesse contexto). Santos qualifica esse fenômeno avesso à lógica apregoada como uma esquizofrenia do espaço, isto é, impossível a imposição de uma ordem que não produza uma contra-ordem por parte dos que, de uma forma ou de outra, se vêem à parte ou ao relento de um mundo que, pretensamente hegemônico, os condena à marginalidade ou visa a impor-lhes o silêncio. A individualidade se joga contra a unicidade de pensamento que rascunha justamente a suposta homogeneidade e hegemonia de uma ordem posta, assimilando as condições materiais do mundo contemporâneo e buscando entender criticamente os paradoxos – que, como diria Santos, devem ser apreendidos como a contradição em estado puro – em torno das mesmas. Corpos que não vêem no mundo globalizado que vem sendo produzido o lugar de suas próprias potencialidades.


NOTAS:

1 SANTOS, Milton. Por uma outra globalização. Rio de Janeiro: Record, 2006, p. 96.

2 Ver SMITH, Neil. “A gentrificação generalizada: de uma anomalia local à ‘regeneração’ urbana como estratégia urbana global”. In. BIDOU-ZACHARIASEN, Catherine et al (coord.). De volta à cidade: do processo de gentrificação às políticas de “revitalização” dos centros urbanos. São Paulo: Annablume, 2006, p. 80.

3 Idem, pp. 62, 63.

4 Ver SANTOS, Milton. Op. cit., pp. 18-20.

5 Detalhes em SMITH, Neil. Op. cit., pp. 76-77. Como exemplo disso, podemos resgatar experiências como as de Belo Horizonte, durante as recentes reformas pela revitalização do hipercentro, em que, além de gerar um estrondo momentâneo nos preços dos imóveis, produziu de forma aleatória ou evidente o sumiço de parte dos moradores de rua do entorno, anteriormente habitantes corriqueiros da Praça da Estação ou da Praça Sete. Em São Paulo, de 2004 a 2006, durante as obras assinadas pela prefeitura de José Serra, alvoroço significativo foi engendrado por parte de movimentos de sem-teto que foram “desalojados” massivamente em curto período de tempo. Ambos os empreendimentos citados tiveram montante considerável de capital privado como recurso, e, no caso específico da capital mineira, cogita-se que parte do empréstimo do Banco Interamericano de Desenvolvimento que seria revertido ao projeto da Linha Verde foi também direcionado às obras do Centro, com destaque para a reconstrução da Praça da Estação.

6 Conhecidos por esse nome no Brasil sob um modelo mais contracultural e subterrâneo, embora digam respeito, na Europa e Estados Unidos, meramente a movimentos de ocupações de habitações abandonadas ou inutilizadas.

7 Ver SMITH, Neil. Op. cit., pp. 77-78.

 

 

Referências bibliográficas:


ARENDT, Hannah. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2008.


BIDOU-ZACHARIASEN, Catherine (coord.). De volta à cidade: do processo de gentrificação às políticas de “revitalização” dos centros urbanos. São Paulo: Annablume, 2006.


BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico. Lisboa: Difel/Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.


DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Belo Horizonte: Edição Pirata (Coletivo Acrático Proposta), 2003.


SANTOS, Milton. Por uma outra globalização. Rio de Janeiro: Records, 2006.


Revista Projeto História: espaço e cultura, vol. 18. São Paulo: EDUC, 1999.

 


Coisas genéricas
reclamebh | 03 Febrero, 2009 02:50

Clique aqui para baixar cartaz em PDF

 

 


dia 31/01 - Cidade Situada [Mesa Amorfa] discute estratégias possiveis na cidade
reclamebh | 31 Enero, 2009 05:24

[Mesa Amorfa]


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